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CuriosidadesUma breve passagem pela história do “Pão Líquido”

22 de novembro de 20180

Que a cerveja é uma bebida universal isso todo mundo já sabe. Em qualquer parte do mundo você consegue beber uma boa cerveja. Mas por que a cerveja é tão popular?

Certamente não só pelo seu custo “relativamente baixo”, nem por sua refrescância capaz de apaziguar as mais altas temperaturas ou por seu teor alcoólico -em algumas delas- capaz de aquecer em um dia de inverno. A cerveja é tão querida assim porque traz consigo tradição, sabor e a sua imagem está sempre ligada a momentos de alegria e descontração. Um dos seus maiores apelos é a simplicidade: é despretenciosa ao mesmo compasso que é alegremente complexa.

A história da cerveja tem início há aproximadamente 9.000 anos na antiga Mesopotâmia, onde os sumérios passaram a cultivar e a se alimentar de grãos. Ao contrário do vinho e do hidromel (fermentado alcoólico à base de mel e água), a cerveja não ocorre na natureza. Foi descoberta por acaso, quando alguém utilizou grãos úmidos e germinados para fazer um mingau que, ao ser aquecido, ficou doce. Caso a fermentação do mingau não fosse interrompida, resultaria em cerveja. Toda produção de cerveja começou com a fabricação deste mingau e de pães, onde existe uma relação direta: ambos são feitos de grãos (cevada, trigo, arroz, aveia), água e fermento, e apresentam o mesmo valor nutricional – assim como o pão, a cerveja alimenta e já foi por isso, chamada de “pão líquido”. Era considerada um alimento mágico, que mantinha a população alegre e saudável e para se ter cerveja suficiente, era preciso cultivar cereais; por isto que o próprio surgimento da civilização se deve muito à cerveja. As primeiras cervejas que surgiram eram muito diferentes das cervejas que conhecemos hoje. Como o trigo era o melhor cereal para a fabricação de pães, ele também era o cereal mais utilizado na fabricação das cervejas. O teor alcoólico era baixo, em torno de 2,0 a 3,0% e era bastante habitual adição de uvas, tâmaras, ervas, raízes e frutos, como alecrim, anis, canela, zimbro, gengibre, mel e avelãs e a fermentação ocorria de forma espontânea.

Foi na Idade Média que a cerveja teve sua grande ascensão e os principais responsáveis por isto foram os monges que levaram a produção das cervejas para os mosteiros. Estes funcionavam como hotéis para viajantes e a bebida era produzida e servida internamente aos hóspedes. Além desta finalidade, a cerveja também era produzida para o período de jejum dos monges, onde somente o consumo de líquidos era permitido e neste caso ela funcionava como alimento para os religiosos: o pão líquido, lembram? Nesta fase histórica a cerveja começou a tomar um perfil sensorial mais parecido com o que temos hoje. O lúpulo ganhou mais destaque com a descoberta das suas propriedades aromáticas e bacteriostáticas. Mosteiros de países como Bélgica, Suíça, Alemanha e Holanda deixaram para a atualidade diversas receitas que até hoje são produzidas de forma fiel ou com modificações. Eram produzidas, e portanto fermentadas, a temperatura ambiente e deram origem à família das Ales – ou cervejas de alta fermentação. Com a chegada da Era Moderna, as descobertas tecnológicas propiciaram uma grande evolução na produção cervejeira. O desenvolvimento da máquina a vapor, do termômetro e principalmente da refrigeração artificial revolucionaram os estilos de cerveja produzidos até então. A produção artificial de frio proporcionou a expansão da cervejas de baixa fermentação (ou Lagers), que antes eram passíveis de produções esporádicas somente durante o inverno. No século XX passamos por um período de globalização e massificação de consumo, quando as cervejas tipo American Lagers (estilo de cerveja onde se utiliza adjuntos e aditivos popularmente conhecidas como “cervejas com milho”) deixaram de lado muitos outros estilos complexos. Felizmente, nos últimos anos temos um movimento contrário de renascimento da cerveja artesanal, cujo objetivo é trazer de volta para o consumidor o prazer de apreciar uma boa cerveja, revivendo histórias, estilos e sabores. Saúde!

“A boca de um homem totalmente feliz está cheia de cerveja.” Inscrição egípcia, 2200 a.C.

Por Alessandra Pulcineli,
Sommelier Originale 

Fontes consultadas: OLIVER, G. The Brewmaster Table. Ed. Harper Collins Publishers. Nova York: 2003. MOURADO, R. Larousse da Cerveja. Ed. Larousse. Brewers Association, 2010 Styles Guideline.

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